Homenagem ao meu avô Anselmo Favarato

Chegando em Acioli - Espirito Santo

15/05/2011 20:39

A Família Favarato chegou em Santa Cruz no dia 10 de dezembro de 1891, e ainda enfrentaram muitas dificuldades para chegar até a fazenda Pau Gigante em Acioli, município de João Neiva.

Todos os imigrantes que chegaram no Espírito Santo nessa época, encontraram uma total falta de infra-estrutura e organização. Em Santa Cruz não encontraram uma hospedaria, existia apenas um galpão para hospedá-los todos juntos - homens, mulheres e crianças - e depois tinham que enfrentar horas de viagem numa estrada em condições precárias até chegar no seu lote de terra totalmente coberto pela mata virgem. Tinham que desmatar a terra, construir sua casa e só então começar a lavoura. Esperavam encontrar pelo menos casas para se abrigar! Houve muita reclamação pelo descaso por parte do governo do estado perante a situação dos imigrantes que chegavam, e muitos procuraram outras terras ou até voltaram para Itália. A repercussão na Itália foi tão ruim que o governo italiano proibiu a imigração para o estado do Espírito Santo em 1895.

Aqui era muita mata mesmo! Meu avô contava que seu pai via onça e tudo quanto é bicho do mato. Ele contava assim:

Meu pai me dizia que naquela época vinha onça pintada na porta de casa. A mula amarrada na estaca perto de casa se espantava quando via onça passar por ali, então tinham que tirar a mula daquela estaca e colocar em outra estaca porque ali ela não ficava mais. E não tinham como matar as onças, porque era só com bala, e não tinham essas coisas.

Dois irmãos se assustaram com aquilo tudo. “Mi va via!”  - disseram. E foram embora para a América do Norte. O nono não desistiu e disse que aqui ficaria porque o Brasil era o lugar onde criaria raízes, onde nasceriam seus netos. Assim ficaram com os demais filhos e enfrentaram muito trabalho.

Meu avô trabalhava tanto, tanto... que até dia de domingo panhava café! Saía em Acioli, comprava uma garrafa de vinho e um pouco de chocolate, chegava em casa piên e dizia: “Mi vá panhar café” -  O cafezal ficava bem perto da casa.

Meu pai assustado: “O que ?! panhar café ?”

Respondia: “Vou fazer o seguinte: vou panhar café, depois, quando encher o saca de café, você vai lá buscar, Eugênio.” – Afinal ele não agüentava o peso.

Pensa bem! Mesmo tchuco ele ia panhar café!

O mito do imigrante que chega sem dinheiro e consegue ficar rico a custo de muito trabalho e sacrifício era propagado por todos os lados. A necessidade de manter todos trabalhando nas lavouras de café, inclusive as crianças, e o isolamento da fazenda, impediu que seus filhos fossem à escola para aprender a ler.  Meu bisavô Eugênio nunca foi à escola, morreu analfabeto, mas tinha a sabedoria adquirida na escola da vida.

Anos mais tarde, a família então conseguiu juntar um pequeno capital e tiveram chance de adquirir mais terras em “Treviso” - nome dado a região de Acioli, em homenagem a terra natal na Itália.

Mas Luigia ficou doente e na época não tinha qualquer tipo de assistência médica. Meu avô dizia que ela sentia muita falta de ar, não conseguia mais respirar, não podia ficar deitada e passava noites e noites sentada, até que morreu. E Domênico, por muitos anos viveu junto com a família do seu filho Eugênio.