Homenagem ao meu avô Anselmo Favarato

Usei vestido e sapato de mulher!

21/05/2011 00:00

Acho que eu tinha uns 9 ou 10 anos e meu pai comprou um riscado escuro e disse: “É para fazer vestido para as crianças”. Veja só, eu ainda não usava calças e sim vestidos!

No dia que estava usando este vestido riscado, resolvi subir numa jaqueira, quando eu vinha descendo lá de cima, a saia que era comprida e larga, prendeu numa estaca e eu caí. Mas o que estava acontecendo!! Fiquei ali pendurado sem conseguir me soltar. 

Minha mãe apavorada mais que depressa foi lá e me puxou pra baixo.

E eu imediatamente falei: “Viu só mãe! Esse negócio de usar saia não está dando mais certo não!”

Minha mãe reconheceu que já estava na hora de usar calças, mas ela não sabia costurar.

Eu já era um molecão e já estava na hora de ir para escola, foi quando minha mãe resolveu procurar Dona Delinda Bisi, a costureira da região.

“Delinda, faça uma calça e camisa para meu filho porque o pai dele vai colocá-lo na escola.”

E assim fui pra escola de calça, camisa, suspensório com botões e cinto, levando os livros e uma capanga.

E a primeira vez que usei sapatos! Foi assim:

Um dia meu pai me disse: “Anselmo, vamos derrubar essa mata ? Eu quero plantar mais café, mandioca, milho e tudo mais” .

Eu falei: “Vamos !”

Mas choveu uns oito dias e nós ficamos esperando melhorar o tempo até que meu pai disse:“Vamos tacar fogo naquela mata!”  E fomos nós.

Queimava aqui, queimava lá fora, queimava tudo! E eu descalço, fincou um pau no meu pé.

Minha Nossa Senhora! Meu pai, com um canivete, cortou um pedaço de pano da camisa, pegou uma folhas e colocou aquele emplasto em cima do pé e amarrou o pano. Mas aí ele disse: “Anselmo, eu vou pra Vitória e vou comprar um sapato pra você

E ele foi mesmo comprar um sapato pra mim! Mediu meu pé com um barbante, juntou ao dinheiro e foi. Na venda, meu pai escolheu um sapato bonito, mediu com o barbante e viu que caberia em mim - “Vou levar esse sapato, mas tenho outras coisas pra fazer aqui e vou ficar até mais tarde, você pode guardar esse sapato que eu venho buscar depois ? ”

“Perfeitamente” - respondeu o vendedor

E o que o miserável fez ? Trocou o sapato bom por um de mulher. Meu pai buscou o embrulho achando que estava tudo certo !

Quando ele chegou em casa, fui logo perguntando: “Trouxe o sapato ?”

“Claro Anselmo, um sapato bonito! você vai ver!”

 Eu fiquei todo feliz. No dia de ir na Igreja meu pai desembrulhou o sapato e espantado: “Várda, várda, vem cá Cesira, várda o que aquele miserável fez, trocou o sapato!”

E gora não tem jeito. Ele disse: “Coloca no seu pé, Anselmo, veja se cabe!”

E não é que coube direitinho! E meu pai: “Claro que cabe, afinal eu levei o barbante pra medir! Anselmo, você vai usá-lo assim mesmo, não se preocupe pois na Igreja ninguém sabe que é de mulher, pois ninguém tem sapatos, todos vão de tamancos!”.

Eu calcei o sapato e fui pra igreja. Ha, ha, eu usei sapato de mulher !! É, mas eu dava graças a Deus que eu tinha sapato!